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Abandono no verão e o Estatuto Jurídico dos Animais: o papel do banho e tosa nessa conversa

Abandono de animais no verão e deveres legais dos tutores voltam ao debate em Portugal. Como o banho e tosa responde com prevenção e fidelização.

Todos os anos acontece a mesma coisa: chegam as férias grandes, as viagens, as mudanças de rotina — e sobem os casos de abandono de cães e gatos. No fim de julho de 2026, o tema voltou à agenda pública em Portugal com um episódio do podcast Direito à Justiça, da Renascença em parceria com a Ordem dos Advogados, em que a jurista Sandra Passinhas, professora na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, explicou o que a lei portuguesa diz sobre abandono, responsabilidades do tutor e até a guarda do animal em caso de divórcio.

A mensagem central é simples e vale para qualquer país lusófono: ter um animal não é apenas um gesto de afeto, é uma responsabilidade jurídica. Em Portugal, essa responsabilidade está distribuída entre o Estatuto Jurídico dos Animais, o Código Civil e o Código Penal, num modelo que reconhece os animais como seres sencientes — ou seja, capazes de sofrer — e que por isso lhes dá um estatuto intermédio, distinto de uma coisa qualquer que se compra e descarta.

Por que isso interessa a quem tem banho e tosa

Pode parecer um assunto distante do dia a dia da tesoura e do secador. Não é. O salão de estética animal é, muitas vezes, o profissional que vê o animal com mais frequência do que o próprio veterinário. Quem faz tosa a cada 6 ou 8 semanas percebe antes de todos:

  • perda de peso, pelo emaranhado, unhas descuidadas, otites recorrentes;
  • mudanças de comportamento que sugerem stress ou negligência;
  • famílias que "desaparecem" da agenda de repente, sem justificação;
  • pedidos de última hora do tipo "pode ficar com ele umas semanas?".

Esse lugar privilegiado de observação transforma o salão numa espécie de primeira linha de prevenção. Não se trata de virar polícia nem de acusar clientes, mas de ter protocolo: registar o que se observa, comunicar com clareza ao tutor, sugerir avaliação veterinária e saber a quem encaminhar quando há suspeita séria de maus-tratos ou intenção de abandono.

O verão como pico de risco (e de faturamento)

O verão concentra dois movimentos opostos. Por um lado, é quando mais se abandona. Por outro, é quando mais se procura banho, tosa higiénica, tratamento de pelo e hospedagem. Ou seja: o momento de maior fragilidade dos animais é também o de maior contacto com o seu negócio.

Algumas ações concretas para esta temporada:

  1. Ofereça alternativas ao abandono na sua comunicação. Um post ou cartaz com opções de creche, pet sitting, hotelaria e transporte de animais resolve o problema real de quem diz "não tenho com quem deixar". Muitas desistências nascem de falta de informação, não de maldade.
  2. Fale de identificação eletrónica sem drama. Em Portugal, o microchip e o registo no SIAC são obrigatórios e são o que permite devolver um animal perdido ao tutor. Confirmar se o cliente está com o registo em ordem é um serviço de valor — e é um assunto natural na ficha de atendimento.
  3. Aproveite o calendário de apoios públicos. A DGAV aprovou para 2026 vários avisos de apoio ao bem-estar dos animais de companhia, abrangendo centros de recolha oficial, associações zoófilas, esterilização, identificação eletrónica e ações de promoção da detenção responsável, com candidaturas de alguns avisos a decorrer até 31 de agosto na plataforma SIAC. Se o seu salão colabora com associações locais, avisá-las é um gesto de parceria que volta em forma de indicação.
  4. Documente tudo. Ficha com histórico, fotos de estado do pelo e da pele, observações de comportamento e autorizações assinadas protegem o animal e protegem você. Num cenário em que a lei reconhece o animal como ser senciente, registo é defesa.

Divórcio, mudança, luto: os momentos em que o cliente desaparece

A discussão sobre guarda de animais em processos de separação mostra outra realidade do setor: grande parte do cancelamento de assinaturas e da queda de frequência tem causa emocional ou familiar, não comercial. O cliente que sumiu talvez esteja num divórcio, numa mudança de casa que não aceita animais, ou num aperto financeiro.

Um CRM bem usado — com histórico de visitas, alertas de clientes inativos e espaço para notas — permite perceber esses sinais e reagir com sensibilidade: uma mensagem simples do tipo "notámos que o Bobi não vem desde maio, está tudo bem?" recupera clientes e, às vezes, evita um abandono.

O posicionamento que ninguém pode copiar

Há salões que competem por preço. Há salões que competem por técnica. E há os que se tornam referência de confiança na comunidade — os que as pessoas procuram para pedir conselho, para encontrar um animal perdido, para saber o que fazer quando a vida complica.

Essa terceira posição é a mais difícil de imitar e a mais rentável no longo prazo. Aproveitar um tema jurídico e social como o abandono no verão para educar, orientar e oferecer soluções não é oportunismo: é exercer o papel que o seu negócio já tem, quer você queira, quer não.

Resumo prático: informe sobre alternativas ao abandono, verifique identificação eletrónica, alinhe-se com associações locais e com os apoios em curso, registe tudo na ficha do animal e vigie os clientes que desaparecem. É bom para os animais — e é excelente para o negócio.

Fontes